Trancar o dedo numa porta dói.
Torcer o
tornozelo dói.
Dói bater a cabeça na
quina da mesa, dói morder a língua, dói cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é saudade.
E a mais dolorida é a sau dadede quem se ama.
Saudade da pele,
do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência
consentida. Podias ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas
sabiam-se lá. Podias ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas
sabiam-se onde. Podias ficar o dia sem vê-lo e ele o dia sem ver-te,
mas sabiam-se amanhã. Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma
saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no
inverno. Não saber mais se ela continua a fazer madeixas no cabelo. Não saber se
ele ainda usa a camisa que lhe deste. Não saber se ele foi na consulta no dermatologista como prometeu. Não saber se ela tem assistido aqueles filmes que gostava, se ele aprendeu a
entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se
ele continua fumando Marlboro, se ela continua preferindo Pepsi, se ele
continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando,
se ela continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais
compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento,
não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como
vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se
ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é
nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.